IMPORTÂNCIA DO DESIGN DE INTERIORES AFRICANO NA ATUALIDADE
- Múcua Arquitetura
- 22 de mar. de 2025
- 9 min de leitura
RESUMO
O presente artigo aborda a cultura africana no interior dos espaços e resulta de um estudo bibliográfico justificado pelo despertar da valorização desta cultura no mundo, em outras áreas de atuação, mas ainda precária no design de interiores. Assim sendo, a pesquisa teve como objetivo, discutir a importância do design de interiores africano na atualidade. Foi possível concluir que a sua importância se dá por transmitir o legado da cultura africana aos seus usuários, como forma de homenagem ao berço da humanidade, bem como a valorização da camada dos artesãos, numa era onde a busca pela tecnologia e os avanços científicos ofuscam a beleza dos materiais feitos a mão.
Palavras-chave: Cultura africana. Design de interiores. Contemporaneidade.
INTRODUÇÃO
Procurando resposta ao questionamento acerca da importância do design de interiores africano na atualidade, foi realizada uma pesquisa bibliográfica cujos resultados são comunicados neste artigo. Esta busca justificou-se pelo despertar da valorização da cultura africana que o mundo tem vivido atualmente. Sendo assim, o objetivo geral do estudo foi discutir a importância do design de interiores africano na atualidade e para tal, necessitou-se especificar o que é caracterizado como design africano; discutir o uso de alguns elementos da cultura no interior dos espaços e apontar a sua importância na atualidade.
1. DESIGN AFRICANO E SUAS CARACTERÍSTICAS
Wikipedia (2020a) explana que o design africano une as diversas formas de design do continente e da diáspora africana, abrangendo o design urbano, arquitetônico, de produto, arte, moda e interiores. Os países africanos são uma grande fonte de design vibrante, com inspirações advindas da arte e cultura histórica e contemporânea em todo o mundo, mas limitado, quanto ao seu ponto de vista.
No design de interiores, o africano se enquadra na categoria de estilo étnico, assim como o design oriental e da América Central, criando uma imersão cultural e ancestral. Hq Designs (2020) explica que este estilo começou a ter a sua ascensão no design de interiores, apenas há cerca de 5 anos atrás, em 2015, e o interpreta como uma conexão de características, padrões e materiais excêntricos comuns do campo, no interior dos espaços.
Sodré (2020) relata ainda que, dentro da caracterização cultural do design étnico, está incorporada a questão identitária e a sua construção histórica pelas conexões matriciais.
Entretanto, Wikipedia (2020a) destaca que o design africano é definido pela sua criatividade que está em constante evolução, e não é nem estremada e nem inerte. O design é uma maneira de contar histórias e é um dos meios pelo qual essas histórias são contadas.
O autor aponta ainda a estereotipagem do design africano, traduzido apenas em estampas étnicas, cores e texturas terrosas, sendo que ele, pelo contrário, possui multifaces que se ajustam ao contexto histórico e atual, local e global em que o usuário ou o designer vive. Ele é enraizado em heranças, técnicas e artesanato.
2. ELEMENTOS DA CULTURA AFRICANA NO INTERIOR DOS ESPAÇOS
No design africano, destacam-se principalmente os tecidos, e alguns mobiliários atuais inspirados na história e cultura do continente. O bògòlanfini é uma técnica artesanal de tingimento de tecido de algodão, tradicionalmente feita no Mali, que consiste em tingir a peça com barro fermentado. Este tecido, conhecido como pano de lama, tornou-se em 1980, um símbolo importante na cultura tradicional do país e hoje é exportado para todo o mundo para o uso na moda, artes e decoração (WIKIPEDIA, 2020b).
Abaixo, algumas variações do tecido em espaços interiores:
Figura 1, 2 e 3 - Variações do tecido bògòlanfini.
(CARUTH STUDIO, 2020, online) (PINTEREST, 2020, online) (LANGTRY, 2020, online)
Segundo Wikipedia (2020b), seu significado cultural se debruça sobre os eventos históricos do país, como a batalha entre um guerreiro maliano e os franceses, muito famosa na região, ou ainda sobre a sua mitologia, por meio da representação de crocodilos ou provérbios.
O autor ainda cita que:
Na cultura tradicional do Mali, o bògòlanfini é usado por caçadores e serve como camuflagem, proteção ritual e um emblema de status. As mulheres são embrulhadas em bògòlanfini após sua iniciação na idade adulta (que inclui corte genital) e imediatamente após o parto, pois acredita-se que o pano tenha o poder de absorver as forças perigosas liberadas nessas circunstâncias. (WIKIPEDIA, 2020b, online).
As figuras a seguir demostram o processo de criação dos tecidos e suas estampas:
Figuras 4, 5 e 6 - Processo de criação das estampas do pano de lama.
(SWAHILI AFRICAN MODERN, 2020, online) (AMONBÊ, 2020, online) (SMITHS, 2020, online)
Daidone (2020) caracteriza as cores de África como claras, fortes e vibrantes. Segundo a autora, além dos tons terrosos que se associam ao continente, em homenagem a sua natureza, algumas regiões preferem cores fortes, e estampas grandes e elegantes e de precedência geométrica, que igualmente representam a natureza. No interior dos espaços, as cores transmitem aconchego, alegria e luz por meio de seus panos na customização de móveis.
Quanto ao mobiliário, Wikipedia (2020a) relata que os designers africanos são familiarizados com o artesanato tradicional e a habilidade em designs contemporâneos, colocando então, um destaque em suas memórias e heranças culturais, mas deixando-se influenciar pela tecnologia e globalização, resultando em trabalhos que consideram a necessidade de sustentabilidade social e ambiental de cada lugar.
Blog Edilnet (2020) caracteriza a simplicidade, economia, leveza e naturalidade do estilo africano traduzido no design de interiores, por meio de materiais naturais e mobiliários de produção artesã que trazem à memória os lares incipientes da cultura do continente. Trata também da contemporaneidade do estilo, por preservar mais o meio ambiente.
Nurjuwita (2020) caracteriza o design africano como um poema à terra que acolhe os moradores da cidade e as múltiplas tribos, por meio de cores vivas conjugadas com tons de terra e detalhes de estampas de animais, trazendo o calor do sol e da areia e também a riqueza da flora e da fauna. O autor traz uma série de designers africanos e suas contribuições no mundo do design e arquitetura. Destacam-se aqui então Thabisa Mjo, criadora da luminária Tutu 2.0 Pendant Light, que é inspirada na saia Xibelani, que segundo o autor, Thabisa diz ser uma evolução da roupa de balé misturado com as marcas registradas de uma peça africana.
Figura 7: Saia Xibelani Figura 8: Luminária Tutu 2.0 pendant light
(THATCHER, 2020, online) (MASH.T DESIGN STUDIO, 2020, online)
Outro destaque é arquiteto Mlondolozi Hempe, por meio da sua obra inspirada em Nguni, uma tribo da África austral (NURJUWITA, 2020).
Figura 9 - Sofá Inkudla
(ARCHITECTUREMAG, 2020, online)
Nurjuwita (2020) explica sobre a obra:
Inspirado no conceito de sentar em círculo, incentivando assim a comunicação. O potjie de madeira, por outro lado, era um elemento rural comum em muitas casas. Os interiores são complementados por tapetes que revestem o espaço de calor, juntando estes elementos. (NURJUWITA, 2020 online).
3. IMPORTÂNCIA DO DESIGN AFRICANO NA ATUALIDADE
Miranda (2015 apud Kabongo, 2020) relata que é comprovado cientificamente que a África é o berço da humanidade, sendo então o local de origem histórica e sociopolítico-cultural de todos os povos. O autor cita que:
Quando ressaltamos os valores e a cultura dos povos africanos reafirmamos a memória civilizatória do continente-mãe, reconhecemos a necessidade de mudar o caminho percorrido de repressão e violência que nos legou tão somente imagens distorcidas, equivocadas e limitadas do continente africano. (FARAH, 2020, online).
As qualidades sociais e político-econômicas contribuem para a fusão de culturas no mundo, sobretudo por possibilitar viajar e experimentar diferentes culturas, acolhendo novos hábitos e culturas, forçadamente ou não (BJERRE, 2020).
Ramos (2020) aventa o impacto da herança africana no design de móveis, por meio do processo de criação do mobiliário contemporâneo com resgate às religiões. Esta herança, segundo o autor, resulta na poltrona Alaka, mostrada na figura abaixo:
Fig. 10 - Poltrona Alaka, de Mateus Ramos.
(GRADO, 2020, online)
A poltrona Alaka é inspirada no tecido alaká, proveniente de tecelagem africana com grande importância na cultura afro-brasileira, sendo a principal vestimenta das mães de santo. Sua criação, parte de uma junção de Exu e Xangô, divindades das religiões de matriz africana e o tecido (RAMOS, 2020).
Fig. 11 - Pano Alaká
(D’OSOGIYAN, 2020, online)
Bjerre (2020) explica que, em uma sociedade focada atualmente na tecnologia, que influencia no dia a dia dos que nela vivem, há uma disposição em priorizar o artesanato tradicional e um incentivo ao design feito à mão.
O autor cita:
Nossa casa deve refletir quem somos, o que nos faz sentir seguros e confortáveis. Ao decorar com elementos de inspiração africana, incorporamos algo escuro e aconchegante em nossas casas minimalistas, o que adiciona uma sensação calorosa e aconchegante em nossa casa. Também criamos uma conexão com os valores naturais em combinação com a bela cultura e história da África. (BJERRE, 2020, online).
CONCLUSÕES
O design de interiores africano é importante por transmitir o legado da cultura africana aos seus usuários, como forma de homenagem ao continente.
Ele proporciona a valorização da camada dos artesãos, numa era onde a busca pela tecnologia e os avanços científicos ofuscam a beleza dos materiais feitos a mão. Em contrapartida, em um âmbito de bem-estar e saúde, ele conecta as pessoas com a natureza, seja por meio das suas cores ou pelos objetos que sempre se remetem a ela. Isto contribui para a reconexão do ser humano, por meio do conforto do seu lar.
O design africano também se traduz em uma peça importante para os afrodescendentes, que pela história de escravidão, se desconectaram com a terra-mãe. Ele devolve um pouco mais das suas histórias, os aproxima e instiga-os a aprender mais sobre as suas tradições. É papel do designer de interiores harmonizar os espaços de acordo com o seu usuário e, pelo design africano, exaltar a história do continente que é o berço de toda a humanidade.
É de extrema importância que o ser humano saiba de onde veio, que tenha as suas próprias raízes, pois assim ele pode ter uma visão melhor do futuro e contribuir para uma sociedade melhor.
Fazem-se importante novos aprofundamentos sobre o tema, que ainda é restrito na área do design de interiores, não só para conhecimento, mas para a abertura de novos nichos de mercado.
REFERÊNCIAS
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ARCHITECTUREMAG. ‘Inkundla’ – lounge sofa by Mlondolozi Hempe. 2020. Disponível em: < http://architecturemag.co.za/mlondolozi-hempe-transformed-imbiza-yesixhosa/inkundla-lounge-sofa-by-mlondolozi-hempe/>. Acesso em: 15 nov. 2020.
BJERRE, Lene. Interior design trend to watch for in 2019: African vibes. 2020. Disponível em: <https://discover.lenebjerre.com/trend/african-vibes>. Acesso em: 13 nov. 2020.
BLOG EDILNET. Casa de estilo africano. Disponível em: <https://blog.edilnet.it/casa-in-stile-africano-quale-arredamento/>. Acesso em: 18 set. 2020.
CARUTH STUDIO. Easy diy ideas: Mudcloth-inspired living room. 2020. Disponível em: <http://caruth-studio.co/easy-diy-ideas-mudcloth-inspired-living-room/>. Acesso em: 15 nov. 2020.
DAIDONE, Juliana. Cores da África. 2016. Disponível em: <https://julianadaidone.com.br/cores-da-africa/>. Acesso em: 19 set. 2020.
D’OSOGIYAN, Fernando. O pano da costa, um apetrecho feminino (sua história e significados). Disponível em: <http://awure.jor.br/home/o-pano-da-costa-um-apetrecho-feminino-sua-historia-e-significados/>. Acesso em: 16 nov. 2020.
FARAH, Paulo. imagem distorcida da África precisa mudar noBrasil. 2003. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u57371.shtml>. Acesso em: 14 nov. 2020.
GRADO. Poltrona ALAKÁ. 2020. Disponível em: <https://www.grado.com.br/produto/poltrona-alaka/>. Acesso em: 16 nov. 2020.
HQ DESIGNS. Estilo étnico de móveis. 2020. Disponível em: < http://hqdesigns.de/en/interior-guide/ethnic-furniture-style/ >. Acesso em: 10 out. 2020.
KABONGO, Serge. Cultura africana por meio do design mobiliário aplicado a um restaurante temático africano no Brasil. 2017. Projeto de Conclusão do Curso (Bacharel em Design) - Universidade de Santa Catarina, Florianópolis. Disponível em: <https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/181973>. Acesso em: 5 set. 2020.
LANGTRY, Sarah. Trending: Mud cloth. 2020. Disponível em: <https://www.interiorsbysarahlangtry.com/blog-posts/2016/9/6/trending-mud-cloth>. Acesso em: 15 nov. 2020.
MASH.T DESIGN STUDIO. 2020. Disponível em: <https://www.mashtdesignstudio.co.za/about-us>. Acesso em: 15 nov. 2020.
NURJUWITA, Dewi. African interior designers are shaking up the design world. 2018. Disponível em: <https://www.lifestyleasia.com/sg/living/property-interiors/african-interior-designers-shaking-design-world/>. Acesso em: 28 out. 2020.
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SMITHS, Our. Bogolan Dyers of Mali. 2020. Disponível em: <https://seven-smith.com/blogs/producers/bogolan-artisans-of-mali>. Acesso em: 15 nov. 2020.
SODRÉ, Jaime. O design da alma: o legado do axé dos mestres e mestras dos saberes e fazeres afro-brasileiro. 2009. Revista África e Africanidades, ano 2, n. 6. Disponível em: <www.africaeafricanidades.com>. Acesso em: 1 set. 2020.
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THATCHER, Roberta. Light inspired by Tsonga 'tutu' crowned SA's most beautiful object. 2018. Disponível em: <https://www.timeslive.co.za/sunday-times/lifestyle/home-and-gardening/2018-02-28-light-inspired-by-tsonga-tutu-crowned-sas-most-beautiful-object/>. Acesso em: 15 nov. 2020.
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WIKIPEDIA. Bògòlanfini. 2020. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/B%C3%B2g%C3%B2lanfini>. Acesso em: 20 out. 2020b.


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